domingo, 29 de maio de 2016

Ana Hickmann S/A: Um sucesso construído a dois

O trágico episódio do ataque que sofreu de um fã é 

um ponto fora da curva na vida e carreira da 

apresentadora da Record - que, com a ajuda do maridão,

planeja e controla com extremo calculismo cada novo 

lance de seu lucrativo império.


Há vinte anos, a então adolescente Ana Hickmann deixou a pequena Santa Cruz do Sul, no centro do Rio Grande do Sul, para acompanhar algumas amigas em um teste para a carreira de modelo em São Paulo. Embora nenhuma das aspirantes tenha sido aprovada, a acompanhante arrasou: aquela loira esguia, com 1,85 metro de altura e penetrantes olhos azuis, encantou de imediato os olheiros da agência que promovia o concurso. Começava aí uma carreira que só cresceu desde então - "acima e avante", aliás, bem poderia ser um slogan para a trajetória de Ana Hickmann.

Alexandre Correa, Ana Hickmann e o filho, Alexandre Junior
Alexandre Correa, Ana Hickmann e o filho, Alexandre Junior

Um segundo lance da juventude teve importância decisiva para a ascensão de Ana. Pouco depois de se mudar para São Paulo, a modelo "ficou" com um rapaz mais velho em uma balada. Ela tinha 17 anos. Alexandre Correa, natural de Sorocaba, interior de São Paulo, contabilizava treze a mais - já chegara aos 30. Tão logo os dois começaram a namorar, uma contingência da carreira dela os levou a acelerar dramaticamente a profundidade de seu relacionamento. Ana recebeu uma proposta de trabalho no exterior, mas o fato de ser menor de idade complicava as coisas. O nó foi desatado graças ao romance com o príncipe trintão: em um lance pragmático, que permitiu a Ana se emancipar e garantir o trabalho no exterior, os dois resolveram se casar. Correa encerrou sua vida de modelo e, a partir daquele momento, virou não só maridão e protetor de Ana, mas também seu empresário. A união do útil ao agradável acabaria cimentando uma relação de durabilidade notável para os padrões das celebridades.
Para se entender a total dimensão do sucesso de Ana Hickmann, pois, é preciso ter claro que tudo que envolve sua vida e seus passos profissionais é fruto dessa entidade dupla. A modelo e apresentadora entra com a imagem, o carisma, a inteligência e certo tino para captar o gosto feminino para roupas, acessórios e afins que estampam seu nome. Ele é o cão-de-guarda que zela pela imagem dela e se revela duríssimo ao brigar por seus interesses comerciais e seus cachês na TV. "Eles trabalham como camelos. São muito batalhadores e cumprem uma carga horária absurda, de umas 15 horas por dia", diz Marcelo Nogueira, profissional que cuida do licenciamento dos produtos Ana Hickmann há treze anos e se tornou amigo do casal.
A aposta no licenciamento de produtos, aliás, é um exemplo emblemático das ambições da dupla. Ana e o sócio-marido entraram nessa seara em 2002, quando ela já era uma modelo internacional consagrada, que tinha em seu portfólio a atuação como uma das celebradas "angels" (ou anjos) das campanhas publicitárias da Victoria's Secret, a marca de americana de lingeries de fama mundial. Àquela altura, entretanto, Ana ainda não era uma personalidade televisiva. Só dois anos depois, em 2004, ela seria contratada pela Record, a princípio para participar do programa de variedades Tudo a Ver. Ana se consagraria na emissora algum tempo adiante, ao se tornar a presença mais cintilante entre os apresentadores da revista matinal Hoje em Dia, que passaria a incomodar a Globo no Ibope durante as manhãs do meio da semana daí para a frente (após passagens por um programa dominical e uma atração exibida nas tardes da semana, Ana voltou em 2015 ao Hoje em Dia). A carreira na TV revelou-se não apenas um acerto em si, mas uma forma espertíssima de potencializar seus negócios pessoais.
Como artista da Record, Ana embolsa um salário de cerca de 300 mil reais mensais (o valor pode subir bastante, porém, graças à participação em merchandising). Mas seu império de licenciamento é uma potência à parte. A marca AH licencia de óculos escuros (seu carro-chefe) a batons, num total de 3 mil produtos. Graças às vendas de produtos com sua marca no Brasil e em quarenta países, da Europa ao Oriente Médio, catorze empresas alcançam um faturamento global declarado de mais de 400 milhões de reais anuais - dos quais se estimam que por volta de 10 milhões tenham pingado em 2015 na conta do casal. Como se vê, não há tempo de crise nos negócios de Ana Hickmann.
Daí vem um bom exemplo de como Ana usa a interação de seus negócios dentro e fora da TV como motor de lucros. As roupas, bijuterias, óculos e outros itens com que aparece no ar são sempre de suas marcas. E a Record - ao que consta, sem exigir contrapartidas - permite que se informe isso nos créditos do programa. Ou seja: ela dispõe de um amplo espaço para ser sua própria garota-propaganda. "É a credibilidade que vende. Ana faz questão de usar seus produtos, para atestar que são bons. Tem celebridades que fazem seus licenciamentos e não utilizam seus produtos - como vão querer que alguém os compre?", diz Marcelo Nogueira. Faz sentido.
No nicho da moda, em particular, a apresentadora chega a dispensar a terceirização: uma das suas ocupações atuais é comandar um núcleo de estilistas que faz criações com sua assinatura. No sábado do trágico episódio em Belo Horizonte, ela tinha ido à cidade para divulgar justamente sua nova linha de moda. A nova fronteira que ela e o marido querem explorar, para unir todas as pontas de seus negócios, é a franquia de lojas dos produtos Ana Hickmann.
Nas conversas com executivos da TV e do mercado de licenciamento, Ana e Alexandre costumam ser descritos como aplicados, esforçados, calculistas - e, sobretudo, estrategistas ambiciosos. "Eles formam uma organização muito bem estruturada. São o casal 20 perfeito", diz o publicitário Sérgio Amado. Na escala das estrelas mais cobiçadas pelos anunciantes, Hickmann construiu uma imagem invejável: com sua estampa classuda e traquejo adquirido em programas populares, consegue atingir pessoas de todas as classes sociais. "Ela é alta, linda, loira, charmosa e inteligente. Como não poderia vender bem? Além disso, tem um bom coach, que é o marido, um cara que joga duro e zela pela imagem dela", diz Amado. O zelo inclui, por exemplo, cuidados para evitar a superexposição - o excesso de campanhas, afinal, mina a imagem qualquer celebridade.
O cálculo envolvido na carreira de Ana passa, ainda, pelo manejo de outro expediente: o uso da vida pessoal como trunfo para embalar a imagem de sucesso e carisma. A própria ideia do casal formado por uma linda e jovem modelo e um tigrão mais maduro, de cabelos grisalhos, funciona como poderoso indutor de desejos aspiracionais em certa parcela do público feminino. Só em 2013, após treze anos de passos determinados e sem perda de foco no rumo da consolidação desse império, o casal finalmente achou que era hora de produzir aquele que Ana chama de "cerejinha de bolo" no processo de lapidação da imagem de mulher completa e feliz: seu primeiro filho. Batizado com o mesmo nome do pai - além do "Alê", agora ela tem um "Alezinho" em sua vida -, o rebento completou 2 anos em março passado. Seu nascimento foi transformado numa atração à parte: do enxoval à primeira entrevista da mamãe, cada passo foi acompanhado em detalhes pela audiência.
Da mesma forma, Ana e Correa atiçaram o imaginário dos fãs ao escancarar as portas de seu "filhotão" - a mansão de 2 mil metros quadrados de área, construída num condomínio na cidade paulista de Itu ao custo de 9 milhões de reais, no qual a família passa os finais de semana e recebe a parentada e os amigos (durante os dias de semana, eles moram num amplo apartamento na Zona Oeste paulistana, não muito distante dos estúdios da Record). Ana abriu as portas de seu castelo branco de vidro e concreto como cenário de um reality show de modelos exibido pela emissora nas tardes de domingo. Ela e o marido também já receberam em seu cafofo uma figura como Geraldo Luís, apresentador de um programa popularesco da programação dominical da Record. Ele desvelou ao Brasil os espaços íntimos do casal, do closet cheio de sapatos e roupas de Ana à cozinha portentosa, mas onde se servem iguarias frugais como fatias de mortadela.
Mesmo a exposição pessoal, contudo, é planejada ao extremo. Ao exibir o filho ou sua nova mansão, fica patente que o casal controla de modo férreo a dosagem e o limite dessas pílulas de intimidade. Na vida real, conforme apontam todos os relatos, Ana e o marido se equilibram entre uma vida caseira e a devoção aos deveres profissionais. "Como fazemos o programa de manhã, ela acorda muito cedo, por volta de 5h30, para fazer ginástica. E não é de ficar acordada até tarde", diz a modelo e apresentadora Ticiane Pinheiro, a "Tici", colega de trabalho no Hoje em Dia e grande amiga de Ana. Completa a ex de Roberto Justus e atual namorada do jornalista César Tralli: "Depois que virou mãe, ela sai menos ainda. No máximo, vai a compromissos profissionais e depois estica a um japonês para jantar."
Nas horas vagas, Ana dedica-se a alguns hobbies frugais que já revelou em imagens e entrevistas. Cuida pessoalmente de um orquidário em sua mansão de campo. Ao lado de Correa, possui um canil de criação e venda da raça conhecida como rhodesian ridgeback - muito requisitada para a função de cão-de-guarda. Na vida pessoal, a estrela de 35 anos encontra um cão-de-guarda eficientíssimo no marido, hoje com 48 anos. Correa tem fama de jogar pesado nas negociações salariais e, a título de proteger a mulher, já se envolveu em um barraco homérico com outra loira da TV, Adriane Galisteu. Tempos atrás, em seu então programa na Band, Adriane saiu em defesa de Chris Flores, antiga colega (e rival) de Ana no Hoje em Dia,que havia sido desancada por Correa numa entrevista. No ar, Adriane disse que Ana deveria ter um filho para se tornar "uma pessoa melhor" (Alezinho ainda não tinha vindo ao mundo, claro). Enfurecido, Correa foi grosseiro nos ataques públicos a Galisteu, questionando inclusive a sexualidade de Adriane.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

LEITURA OBRIGATÓRIA: ''A adolescência agora vai até os 25 anos de idade''

Estamos criando uma geração inteira de gente infantilizada?


» As crises de choro e raiva, o mimimi e a incapacidade de lidar com as próprias frustrações venceram. Psicólogos jogaram a toalha. Em vários países ao redor do mundo, a recomendação é clara. A adolescência não vai mais até os 18 anos, como outrora. A adolescência se estende, hoje, pelo menos até os 25 anos.
Vinte e cinco anos. Releio a notícia até me habituar ao som do numeral. Vinte e cinco.
A primeira reação é indignada: como assim pessoas de barba na cara, estudadas, no auge de seu vigor, podem ser adolescentes?
O que isso significa?
A adolescência é a fase mais turbulenta da vida. A fase da modorra e do casulo, em que nos encerramos em nossos quartos como lagartas em profunda meditação, com a esperança de, se tudo der certo, sairmos de lá metamorfoseados em gente (às vezes, não dá).
Em gente adulta, claro. Gente que começa a perceber sua pegada pelo mundo e a se responsabilizar pelos próprios atos. Crescer, assim, tem menos a ver com saber o que se quer da vida, coisa que ninguém, em idade alguma, sabe muito bem, e mais a ver com assumir a bronca. A bronca toda, sabe? O pacote trágico. Abrir os olhos e constatar que a roupa não se lava sozinha, que a comida não se apronta gentilmente no prato, que oportunidades não batem à porta e que as contas continuarão chegando, mês após mês, pouco se lixando para sua crise existencial.
Constatar que ninguém lhe deve nada, que a natureza não tem ética nem bons modos, que “o futuro” é um capital volátil, que se converte em passado quase instantaneamente.
(E, ao fim do processo, acordar com a cara de seus pais.)
Adultescer é saber que o mundo segue e seguirá com ou sem você. Enquanto você chora, segue. Enquanto você ri, segue. Enquanto você trai ou é traído, enquanto você casa ou separa, enquanto você dorme ou trabalha, enquanto você vara noites no Face, madrugadas no YouTube, o mundo segue em frente.
A dificuldade da adolescência é entrar nesse mundo e se despedir do anterior, o mundo da infância, quando tudo escorria devagar em longas horas de tédio e autocontemplação. Quando o mundo esperava por você gentilmente: você decidir a roupa, o humor, as ideias. Mundo-mãe, infinitamente paciente com as suas besteiras e caprichos.
Era assim até os 18 anos. Então: estudar, trabalhar, sair de casa o mais rápido possível. Virar-se.
Mas agora somos adolescentes até os 25.
Se a primeira reação é de choque, a segunda é resignada: eu já sabia. Não há como dar aula sem saber. Não há como ligar a TV sem saber. Ver uma novela, comer um lanche, sem saber. Eles, adolescentões, estão em toda parte: cercados de gente que lhes bajula e protege, em bolhas, a salvo do sereno, da chuva, da selva. Com o peito estufado da certeza de serem especiais, de que o mundo se curvará ante a sua vontade, assim como fazem os pais. Com as salas abarrotadas de troféus de plástico e medalhas de participação, com os 30 diplomas de início de atividade interrompida – balé, natação, ginástica, piano, guitarra, judô, alpinismo. Tudo abandonado ao primeiro obstáculo.
Protegem-se tanto da vida que não a vivem, verdadeiramente, os adolescentões de 25. À espera do sucesso certo e iminente: um vídeo viral, um convite para a TV, um casamento dos sonhos. Sabem que são especiais, embora de especial não façam nada. Sua hora vai chegar, é certo. Está logo ali. Distraem-se enquanto a natureza, como sempre, assiste e ri.
Às vezes tudo o que quero é pegar um adultescente pelo colarinho e sacudir.
Mas pra isso serve: a vida«

RENATO ESSENFELDER, blogueiro do Estadão, 02 de maio de 2016.